segunda-feira, 30 de junho de 2008

A AGRESSIVIDADE...


"…deve ser uma consequência do próprio processo competitivo.Com isto queremos dizer que a prática do nosso desporto implica o ser agressivo, e nós como treinadores devemos fomentar essa agressividade nos nossos jogadores, mas sempre tentando orientá-la exclusivamente para as acções que as regras do jogo nos permitam. A partir do momento em que existe um confronto entre duas equipas fica claro que ambas querem ganhar, caso contrário não se enfrentavam.
Esta necessidade de ganhar ao adversário é a base sobre a qual assenta todo o desporto de competição, e também o nosso. Os problemas costumam aparecer quando esta agressividade que devemos utilizar para vencer o adversário não está canalizada dentro das margens legais do desporto em questão. É óbvio que existem desportos em que se pode agarrar o adversário, empurrá-lo ou inclusivamente golpeá-lo, mas isto não se pode fazer no futsal e o jogador deve tê-lo perfeitamente claro. Portanto as nossas acções dentro do campo serão dirigidas em função da bola (para recuperá-la ou tentar metê-la dentro da baliza do adversário), evitando acções de agressão a adversários, colegas, árbitros ou público.

…no nosso desporto é uma atitude que o jogador deve adoptar para competir. É fazer entender ao adversário somente com a nossa presença que não vai conseguir superar-nos, é intimidá-lo agonisticamente, é provocar a insegurança nas suas acções, é obrigá-lo a actuar de uma forma a que não esteja habituado e que o faça errar, é chamar a sua atenção constantemente para que não possa ajudar os seus companheiros, etc.
A cultura desportiva fala-nos da nobre actuação ao praticar o nosso desporto; isso está muito bem, mas não nos podemos comportar assim somente quando ganhamos. O difícil no desporto é saber perder e aceitar que o facto de competir pode também conduzir-nos à derrota. Deve competir-se para ganhar, mas sabendo que se pode perder. O jogador tem que assumir isto ou não será capaz de ser um competidor leal, uma vez que quando estiver a perder recorrerá, como se vê em tantas ocasiões, à agressão física ou verbal, a culpar o árbitro dos próprios erros ou inclusivamente aos próprios colegas de equipa. Um facto pelo qual muitos dos jogadores não progridem é porque não são capazes de aceitar que se enganam, e o não assumir dos próprios erros leva a pensar que na verdade não se falha, pelo que se costuma deitar a culpa de uma falha própria num erro de um companheiro, numa acção ilegal do adversário ou a num grave equivoco do árbitro. O treinador que favorece este tipo de actuação está a fazer um fraco favor aos seus jogadores, pois para melhorar é imprescindível querer fazê-lo, e se alguém pensa que já faz tudo bem é difícil que possa reconhecer que alguma vez se engana.…
bem canalizada faz com que o jogador tente vencer dentro dos limites regulamentares, e que se não o consegue felicite o adversário e depois nos pergunte em que deve melhorar para o conseguir vencer na próxima ocasião. Se da nossa posição de treinadores lhes dizemos que a derrota apareceu porque o árbitro não assinalou três penaltis que sofremos, e que quando foi ultrapassado sendo o último defensor tinha que ter partido uma perna ao atacante, estaremos a afastá-lo da realidade em primeiro lugar; não seremos capazes de o fazer melhorar como jogador e como pessoa em segundo, e por último estaremos a demonstrar a nós próprios a nossa incapacidade como treinadores. Se pelo contrário lhe dizemos que fez mal ao ficar a protestar com o árbitro esses possíveis penaltis e que por isso sofremos dois golos e que deve melhorar a defesa do um contra um, uma vez que somente com uma finta o atacante o conseguiu ultrapassar; e na semana seguinte o ajudamos a trabalhar esse aspecto estaremos a contribuir para que melhore tecnicamente e a fazer-lhe entender que as decisões do árbitro não são problema seu, já que não pode fazer nada para as evitar ou modificar, mas sim é, o estar no campo e não fazer o que deve para ajudar os demais companheiros.
Muitos treinadores têm o costume de fazer crer aos seus jogadores que são os melhores com a finalidade de entrarem no campo sem medo do adversário e “carregados mentalmente”. Nós cremos que isso é um erro, uma vez que ao acreditarem na obrigação de ganhar por serem os melhores não serão capazes de assumir uma derrota se esta se verificar (e possivelmente chegam a utilizar a agressividade num sentido erróneo), e em caso de vitória, terão simplesmente cumprido com o que deveriam fazer. Se como treinadores temos esta filosofia (especialmente nas categorias de formação), estaremos a contribuir antes do tempo para a criação de jogadores para os quais não serve outra coisa que não seja a vitória, uma vez que a derrota deve ser uma consequência do que aconteceu no jogo, e se a outra equipa demonstrou ser superior quer dizer que a nossa deve melhorar no próximo confronto, porque caso contrário irá perder novamente.
O facto de sermos treinadores dá-nos um poder muito grande na hora de motivar os nossos jogadores para que se concentrem nos aspectos “importantes” do jogo, que não são mais do que a posse e situação da bola e a movimentação e colocação dos colegas e dos adversários. Se formos capazes de lhes fazer entender que todas as suas energias devem orientar-se neste sentido e não no dos protestos com o árbitro, ou na agressão ao adversário ou na discussão com o colega, estaremos a canalizar a sua agressividade para aquilo que na verdade é importante."
Javier Lorente Peñas e Jesus Velasco Tejada